Portfólio Literário

Fernanda de Aragão [e Ramirez]. Mestre e doutora pela UNICAMP, desenvolve pesquisas em psicanálise e esporte. Arte-experimentadora, criou o projeto Diz-Quetes, e outros, junto ao Letra Corrida, ateliê de Literatura e Criatividade. Escritora, posta no Cinco de Outubro. Seu primeiro livro, Língua Crônica, foi premiado pela União Brasileira de Escritores. Alegre e inquieta, registra seus devaneios sobre Divulgação Científica no Polegar Opositor e colabora com o Jornalirismo. Edita os fanzines “Vestindo Outubros” e “Sujeito Simples”. É paulistana de nascimento. Em conjunto com amigos criou o blog Ser-Tão Paulistano. “Fê.liz”, se diz mais “Fê.bricitante” do que “Fê.menina”.

24.11.11

Memorial Acadêmico

Aqui, no meio dos estudos do doutorado achei um dos exercícios da época de graduação. Fazer um memorial acadêmico. Legal ver o quanto eu mudei nos últimos 14 anos, aquilo que faz sentido e aquilo que deixa de fazer. Reproduzo aqui o texto.

INTRODUÇÃO 

Lindo dia de Outono
Natural de São Paulo, a data do meu nascimento, tornou-se bastante representativa no meu décimo segundo aniversário, não propriamente pela comemoração dos meus anos - nem me lembro do sabor do bolo - mas especialmente porque neste dia foi promulgada a Constituição da República Federativa do Brasil. Não sou uma pessoa famosa ou importante, e o meu ciclo de amizades não aumentou por causa deste acontecimento histórico, como não aumentaria de qualquer jeito, mesmo se as pessoas soubessem qual é o dia que nossa Constituição foi promulgada.

 Caçula de uma família com mais dois meninos, vim ao mundo sob o signo de libra e sobre a proteção de Vênus. Não sei quando tive conhecimento, mas por informações de minha mãe, e ela deve saber mesmo disso, a primeira parede que devo ter visto na vida foi a da Maternidade do Hospital Nove de Julho em São Paulo. A minha primeira foto, que repousa em um documento de identificação, também foi tirada lá. Isso porque este documento foi feito no mesmo local, e dizia o seguinte: Declaro que às 10:45 hs da manhã do dia 05 de outubro de 1976 foi dada a luz a uma criança do sexo feminino cujo o nome é Fernanda de Aragão e Ramirez ... etc, etc, etc...

A primeira lembrança que tenho da minha infância, é o trenzinho a pilha que meu pai nos deu de presente, a mim e a meus dois irmãos. O trilho pelo qual o trenzinho passava tinha um circuito redondo. Meu irmão caçula e eu sentávamos no centro e ficávamos olhando, olhando, olhando. Também me lembro da lousa que papai comprou para brincarmos. O primeiro uso dela foi para um desenho que o papai fez do cabelo da mamãe. É que minha mãe tem um cabelo que é só dela, inconfundível.

Na escola fiz muitas coisas: fiz uma ou duas aulas de violão, que só me lembro do violão furado que uma mulher muito gorda me emprestou e de uma musiquinha tradicional que só usava três notas e se chamava A Praça: "A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores e o mesmo jardim. Tudo era igual, mas estou triste porque não tenho você perto de mim." Sai do violão e fui fazer balé. Não me lembro quantas aulas eu fiz, mas abandonei logo o barco, porque essa história de pliê não era comigo. Só gastei dinheiro com colante, sapatilha e coisas afins. Depois entrei na Ginástica Olímpica, onde aprendi a fazer avião, ponte, parada de mão na parede, estrela e rodante. Em uma dessas aulas, o professor coordenador de esportes do colégio esticou minhas pernas até doer, depois me elogiou. Saí da Ginástica Olímpica e fui fazer natação.

Na natação aprendi os três estilos básicos e depois de passar uma vergonha enorme em uma competição, sai. Também fiz Iniciação Esportiva, com o professor "Maçã". No final de um ano ele me disse que eu tinha mais aptidão para a prática do basquete e do atletismo.

Fui fazer basquete, o que aconteceu por longo tempo. Mas não gostava de competir, acho que é porque tinha medo. Um dia decidi aceitar a escalação do técnico para jogar em um campeonato em Mairiporã. Na hora do jogo fiquei com medo e sumi, não sei por que, já que ganhamos por WO. Não preciso nem dizer que o time ficou com uma raiva tremenda de mim. No outro campeonato fui chamada para jogar novamente, e também aceitei para o desespero inicial do meu time. Desta vez eu entrei na quadra e joguei. E depois do primeiro, vieram muitos outros jogos.

Já perto dos 14 anos fui fazer um teste para integrar a equipe da capital. Fiquei satisfeita por ter passado no teste, treinei um tempo lá e depois fui praticar atletismo, atividade que vinha levando paralelamente com o basquete. Inicialmente o fiz na escola mesmo, acabei por integrar a equipe do Professor Nélio, no Conjunto Constâncio Vaz Guimarães. Nessa época eu já apresentava problemas no joelho e muitas dores provenientes ao treinamento precoce, terminando na sala de fisioterapia de uma clínica especializada.

Depois de meses parada e fazendo tratamento fisioterápico, tentei voltar à prática esportiva, mas não aguentei mais o ritmo dos treinamentos nem as dores no joelho, então resolvi voltar a estudar e fazer Faculdade de Educação Física.  

O VESTIBULAR: preparação, escolhas, provas e resultados. 

 Concluí o Segundo Grau na EEPSG Major Arcy, após nela ter ingressado para repetir os estudos correspondente ao Segundo Ano Colegial, abandonado anteriormente quando os realizava no Colégio Arquidiocesano de São Paulo. Ainda no Terceiro Ano Colegial, matriculei-me em um Cursinho Preparatório para o Vestibular, onde permaneci por dois meses, retornando somente no ano seguinte após ter sido reprovada no vestibular da Universidade de São Paulo. Comecei meus novos e velhos estudos em um cursinho, mas em outubro, um mês antes do início das provas dos vestibulares, fiquei com medo de não estar preparada para ingressar em uma das três universidades que eu almejava (Usp, Unesp e Unicamp), e resolvi fazer outro, mais exigente. Estudei muito nas duas primeiras semanas estimulada com o novo ambiente e com as novas expectativas, depois, novamente, perdi o ritmo e o entusiasmo. Em casa, e eu adorava, estudava um pouco de matemática e, porque também gostava, escrevia bastante.

Com tantas escolhas para decidir um único futuro, uma certeza: em primeiro lugar eu tentaria a Usp, depois Unesp e a Unicamp. Já me bastaria, mas como fui convencida pelos meus pais e também pelo medo de não estudar no próximo ano, resolvi tentar escolhas mais acessíveis, inclui dois novos campi: a UMC (Universidade de Mogi das Cruzes) e a FMU (Faculdade Metropolitanas Unidas). Depois de ter escolhido os alvos, faltava o mais importante: escolher que curso concorrer a cada uma dessas escolhas. Para isso fiz, aos sábados, um curso de Orientação Vocacional, muito comum hoje em dia. Algumas coisas eu sabia que não queria e a Educação Física ocupava 70% do meu potencial de escolha, o que limitava bastante minhas opções. Mas não era tão simples assim. Eu também tinha interesses em Artes Plásticas, Psicologia e Matemática. Descartei a Matemática e as Artes Plásticas por se tratarem de um hobby. A Psicologia descartei pela possibilidade de fazê-la posteriormente, ou como curso integral ou em forma de especialização. Então, fiquei com a Educação Física mesmo. Meu primeiro confronto com as provas foi na UMC.

Como não queria estudar lá, limitei-me ao mínimo possível e dei razão à preguiça de escrever os longos parágrafos exigidos enquanto resposta. Desisti das provas da FMU, por estar contundida no exame prático. Depois era a vez de encarar a primeira prova da primeira fase do vestibular da Usp, que devido a um bloqueio emocional, fui muito mal. Já sabendo que não conseguiria estudar na universidade mais famosa do país, fiz os outros vestibulares com mais tranqüilidade. Fiz uma boa primeira fase da Unicamp e excelentes provas da Unesp, mas não podia afirmar um resultado eficaz.

Faltaria ainda a segunda fase da Unicamp, se não fosse a notícia de que todos os concorrentes deveriam refazer as provas da 1ª fase. A notícia não foi agradável, principalmente quando não se agüenta mais a pressão atribuída ao vestibular. Sabendo que minhas opções haviam se diminuído, refiz a prova com calma, o que me garantiu um bom desempenho. Devido ao atraso do vestibular, as provas da segunda fase ficaram próximas do carnaval, aumentando o desgaste. No meio da confusão, fiquei sabendo que havia passado na UMC (o que já garantia a continuidade dos meus estudos) e também que minha vaga na Unesp havia sido confirmada. Então, já satisfeita e cansada, fui fazer as últimas provas (da Unicamp) com a única preocupação de entregá-las rápido para evitar o trânsito das seis horas, saindo das provas assim que era permitido, sem mesmo completá-las.

Curtindo a felicidade de ter passado no vestibular, fui para Rio Claro fazer a matrícula. Aguardei com ansiedade ao início das aulas, o que aconteceu pouco tempo depois confirmando minhas expectativas. Infelizmente, fiquei por lá menos de uma semana, até ler nos jornais meu nome ocupando o primeiro lugar da lista de espera do vestibular da Unicamp, quando me tornei "bixete" da segunda universidade mais famosa do país.

A UNICAMP: primeiras e últimas impressões. 

Diferente da Unesp, a nova universidade tinha outras características. Enquanto em Rio Claro as pessoas eram mais amigas e solidárias, isso não acontecia em Campinas. Pelo mesmo motivo, agradeci não ter entrado na Usp. Criei expectativas pensado a Faculdade diferente do Ensino Médio, principalmente em relação ao comportamento dos alunos, mas logo no primeiro dia de aula, percebi que tudo continuaria igual, só não teria mais minha família por perto.

Nunca me lembro de ter gostado de estar na Unicamp, mas me encontrei presa a ela como jamais pensei, principalmente depois que passei a dar aulas na escolinha de basquetebol. Pedir transferência para outro lugar limitaria a continuação deste trabalho e implicaria no afastamento de algumas pessoas que tive oportunidade de conhecer. Hoje eu já não sei...

Os últimos semestres vêm se tornando cada vez mais insuportáveis, não só pela divisão da grade horária que nos limita enquanto futuro profissionais, mas pela espera da qualidade nos serviços que nos são oferecidos. Com tanta coisa para aprender com a experiência de vida, viver um curso teórico e limitador, é levantar as mãos para o céu. Se fosse relatar o que achei de cada disciplina, retornaria ao final de cada semestre e reescreveria minhas críticas, o que causaria uma grande sensação de tempo perdido. Todas as matérias foram aproveitas de acordo com as potencialidades oferecidas. Algumas foram boas e outras não tão eficientes assim, como alguns professores foram merecedores de atenção e outros não. De um modo geral, enquanto algumas disciplinas acrescentavam conhecimentos, outras só aumentavam o desejo de aproveitar melhor o tempo perdido.

Como adquirir conhecimento não é estar sentado em uma sala de aula ouvindo um professor falar a mesma coisa para 50 pessoas com velocidades e interesses diferentes, e sabendo que alguns alunos podem melhorar seus conhecimentos aproveitando o tempo de outra forma, ruim é passar anos de estudo acordando mais cedo em busca de um tempo perdido. Durante o período acadêmico senti a necessidade de complementar os meus estudos com cursos e atividades que pudessem suprir a lacuna existente no currículo institucional. Na escolha destas atividades, o primeiro ponto considerado foi o grau de compatibilidade entre elas e as atividades acadêmicas oferecidas, sendo importantíssimo a não compatibilidade entre as mesmas; já em segunda instância, teríamos que ser afins (eu e as atividades). Algumas delas contribuíram na minha formação, outras, como se é de esperar, fugiram completamente deste propósito e as aproveitei como pude.

Tive a oportunidade de experiências significativas, como a participação na Empresa Jr. e na Atlética, onde aprendi coisas sobre o trabalho em grupo e a realizar projetos. Já a Escolinha de Basquete, administrada pelo Prof. Dr. Roberto Rodrigues Paes, foi (e ainda é) insuperável em seus atributos e aprendizados. Depois de, aproximadamente, dois anos de trabalho e dedicação, entre frustrações e sucessos profissionais, aprendi a não esperar que as coisas caiam do céu, nem mesmo esperar dos outros aquilo que é inesperável, porque as pessoas sequer podem, delas, dar conta. Também aprendi a prestar contas e a avaliar o desempenho do meu trabalho. Comecei a entender um pouco mais sobre o que é ser um educador e um treinador esportivo, e quando senti confiança, ousei. Não posso negar, e por isso dou o braço a torcer, que a Unicamp, por ser Unicamp, abriu as portas do mercado de trabalho de forma estonteante. É claro que não esperei sentada que as coisas acontecessem, mas rotular-me com seu nome, ajudou bastante.

Atualmente, por causa deste meu novo significante, sou estagiária na Secretaria de Esportes e Lazer de Vinhedo, onde trabalho com atletismo, voleibol, handebol e futebol de campo onde também sou goleira do time da cidade. Não sei se pretendo continuar por lá, porque se trata de um ambiente em que as pessoas têm uma preguiça subjetiva, principalmente se são concursadas, o que declina, e muito, a qualidade do trabalho. Não dá uma sensação de tempo perdido?

Nesse tempo de faculdade fiz coisas, deixei de fazer coisas e agora estou de partida. Agora vou em busca das coisas que deixei de fazer e que muito me fazem falta. Agora vou em busca do que está por vir. Sim, o por... vir.

O POR VIR... 

Estou acabando a faculdade e sei que estou amadurecendo, envelhecendo. Percebo isso pelas minhas escolhas, que estão ficando mais lapidadas, mais exigentes do que antes. Algumas das coisas que eu dava importância, agora já parecem não fazer sentido.

Não sei bem ao certo o que vai acontecer comigo daqui por diante, e como dizia o poeta, depois de amanhã é domingo, e segunda-feira... ninguém saberá! Alguns dos meus sonhos e desejos quero que se realizem. Tenho esperanças disso porque vou tentá-los. Outros já não arriscaria tanto assim, mas também trago esperanças ... é que a gente vai mudando.

Se hoje eu ando devagar é porque eu procuro isso. Tento fugir de algumas responsabilidades que me envelhecem porque tenho medo de esquecer as coisas simples que se traduzem em bons momentos. Por exemplo, agora senti vontade de preparar um molho entre um parágrafo e outro, escrever me permite isso. Um molho na vida da gente nem sempre faz sentido, mas não é menos importante do que outras coisas. No fundo, sei lá o que dizer sobre o futuro... Fernando Pessoa também dizia não saber. Se eu vou conquistar o mundo depois de amanhã? Não sei.

O importante é conquistar a felicidade agora... amanhã, importante, seria continuar vivendo a felicidade de agora, e assim por diante. Outro dia me questionei sobre minha felicidade futura. Não me pareceu incrível não ter chegado a lugar algum. Acho que não é muito estranho não ter um projeto de vida, mesmo sabendo, que socialmente, este é o momento e o mundo dos projetos.

Loucura? Não sei. Na tarde de segunda feira ouvi uma frase interessante que dizia: "não há homem fracassado, o modelo de sucesso é que está errado", e não me pareceu absurdo.
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